ENTREVISTA COM AUTORES #307 | Autor Fred Itioka
1 - Qual foi sua inspiração para começar a escrever?
Digo que a inspiração veio da angústia e da possibilidade da perda. Durante a pandemia tive medo de perder meus pais. Completamente isolados, nós nos falávamos por telefone e em uma destas ligações, falei "te amo" pro meu pai. Nunca havia falado isso e ambos ficamos desconcertados. Como muitos homens gays, tive muitas questões com meu pai: falta de afeto, de diálogo, conflitos, embates, medo e vergonha. Após esta ligação, passei uma madrugada em branco pensando em tudo que nunca foi dito e que a morte poderia nos privar de tantas experiências e trocas. Comecei a procurar outros homens gays para saber da relação com o pai e passei a entrevistá-los. Foram quase 100 entrevistas com personagens de diversas faixas etárias, de 18 a 70+, condições socioeconômicas, religiões, de vários estados do país. Aos poucos, fui procurando outros relatos de homens gays de outros países e culturas.
2 - Quais autores ou obras influenciaram seu estilo de escrita?
Minha escrita viaja entre a literatura e o jornalismo, uma vez que sou jornalista. Jorge Amado é uma referência por trazer uma experiência sensorial e ele me despertou para a curiosidade de olhar pro outro e outros mundos. Também gosto de Franz Kafka, de Albert Camus, de Mishima. Não se se influenciaram diretamente meu trabalho, mas eles me proporcionam reflexão, às vezes desconforto e isso é muito estimulante.
3 - Como você lida com o bloqueio criativo?
Lido com o bloqueio criativo de forma caótica. Não sou muito sistemático, nem linear e sinto que a gente tem que estar com os canais abertos para a criação: às vezes vem de uma observação na rua, um café com amigo, no banho. Já sonhei com textos e acordei para escrever, ou transcrever, aquilo que sonhei.
4 - Quais desafios você enfrentou durante sua jornada como escritor(a)?
O primeiro grande desafio é acreditar no seu próprio projeto. O segundo é sair em busca de uma editora que aceite esta aventura coletiva de editar e lançar um livro e respeitar as suas ideias. Todo processo é um aprendizado: do primeiro contato ao lançamento e manutenção, vendas, distribuição, marketing. Entender o mercado que tem enfrentado grandes transformações e saber o que pode funcionar ou não, dentro dos limites de cada autor e do tamanho da editora.
5 - Você já teve experiências significativas com seus leitores? Alguma história que gostaria de compartilhar?
Uma das maiores alegrias com "Cartas fora do armário" tem sido o contato e retorno dos leitores de todo o país. Mas há duas muito marcantes: durante o lançamento do livro em Goiânia, reparei que havia um número expressivo de mulheres. Eram mães de filhos LGBTs, algumas foram ao evento escondidas dos maridos. Uma delas me disse que foi comprar o livro em homenagem ao filho, um rapaz gay, que já havia falecido. Em São Paulo, um clube de leitura formado por homens gays maduros escolheu o livro e durante o encontro cada um escreveu uma carta ao pai. Todos leram em voz alta na minha frente. Foi muito emocionante esta catarse.
6 - Como é o seu processo de escrita? Você segue uma rotina específica?
Como disse, não sigo uma rotina de escrita. Às vezes faço anotações que parecem aleatórias. Me dou um tempo e respeito estas paradas. Leio, vou ao cinema. Mas sinto que a noite e madrugadas são mais convidativas. O silêncio das madrugadas me ajuda muito, me alimenta.
7 - Qual é o impacto que você espera que suas obras tenham nos leitores?
Espero que o livro seja um agente de reflexões a ações dentro da sociedade, nas famílias. O Brasil ainda figura no topo dos países que mais matam LGBTs no mundo e estamos vendo discursos de ódio e exclusão aumentarem e sendo validados por governos de extrema-direita. LGBT pode parecer apenas uma sigla, mas nela estão histórias de muitos de nós, muitos dos que escreveram cartas imaginárias aos pais e que até hoje sofrem com a rejeição e o desafeto. Adultos que cresceram sem receber um abraço ou um gesto de carinho e apoio. E estas pessoas estão aqui, ao seu lado: são amigos, filhos, primos, colegas de trabalho, vizinhos. A violência está muito próxima de todos.
8 - Quais são seus planos para o futuro? Você está trabalhando em algum novo projeto?
"Cartas fora do armário" continua voando e trazendo muitas alegrias. Recentemente apareceu em uma cena da novela Três Graças com a personagem Juquinha, tem sido muito abraçado por educadores e psicólogos e há um namoro para edição em língua espanhola. Também estou preparando um segundo livro, também na temática LGBT, que deve ser lançado no segundo semestre. E já tem um outro pronto, mas com um estilo completamente diferente.
Gostaria de deixar algum recado para os leitores do Lost Words, e para seus futuros leitores?
A literatura é uma amiga para todas as horas. Com ela achei respostas para muitas das minhas questões, dúvidas, indignações e problemas. Com ela eu conheço o mundo, outros universos, repenso a minha própria vida. Com a literatura eu rio e choro no meu tempo. É um conhecimento só seu, quase um segredinho entre você e o autor. Procurem autores brasileiros, pesquisem obras de editoras independentes. É surpreendente quanta publicação boa tem por aí. E te convido a viajar comigo por páginas e palavras. A gente pode ter muito o que trocar!
Sobre sua(s) obra(s):
Sinopse: Cartas Fora do Armário reúne relatos de homens de diferentes países que escrevem aos pais sobre sua sexualidade, amor e silêncio
Com relatos vindos de países como Brasil, Irã, Japão e Afeganistão, primeiro livro de Fred Itioka — jornalista e defensor dos direitos LGBTQIA+ — apresenta histórias marcadas por silêncios, repressão e o desejo de reconciliação
Em Cartas Fora do Armário (Edições Cândido), o jornalista e roteirista Fred Itioka apresenta uma coletânea de 21 cartas escritas por homens gays de diversas partes do mundo. Endereçadas a seus pais, as cartas são desabafos profundos e anônimos sobre o que muitos desses filhos nunca conseguiram dizer em voz alta: suas verdades, afetos e as dores que a rejeição ou o silêncio provocaram ao longo da vida.
A ideia nasceu em 2020, durante a pandemia, quando Fred disse “eu te amo, pai” por telefone e se deu conta de que, em 50 anos de vida, talvez nunca tivesse expressado esse sentimento. Homem gay asiático, ele cresceu num ambiente em que afeto e sexualidade eram temas marcados por repressão e distanciamento. A partir desse gatilho emocional, decidiu procurar outras histórias semelhantes — e entrevistou mais de 100 homens gays de diferentes países, num processo de escuta que misturava jornalismo e empatia.
As cartas presentes no livro abordam temas como abandono, mágoa, casamento, medo e perdão. Algumas foram escritas por homens que fugiram de seus países para não serem condenados por sua orientação sexual. Outras vêm de contextos onde o conflito é mais sutil, mas igualmente doloroso: pais que nunca conseguiram falar sobre o assunto, filhos que ainda aguardam um abraço.
“Meu primeiro impulso foi escrever um livro contando as histórias desses homens a partir das entrevistas. Mas percebi que seria muito mais potente que o leitor tivesse acesso às cartas escritas por eles mesmos — mesmo que eu os ajudasse a transformar sentimentos em palavras.” — Fred Itioka
Como muitos dos entrevistados jamais haviam escrito uma carta na vida, Fred ajudou cada um no processo: deu sugestões, leu versões iniciais, conversou sobre memórias, inseguranças e o que desejavam dizer. O resultado é uma coletânea íntima e tocante — e que se encerra com a carta do próprio Fred.
“Decidi escrever minha própria carta após um dos entrevistados desistir no meio do caminho. Só então eu entendi a dificuldade que implicava colocar no papel palavras e sentimentos guardados por tanto tempo.” — Fred Itioka
Além dos relatos, a obra traz um apêndice com informações sobre os contextos legais, sociais e religiosos que envolvem a vivência LGBTQIA+ nos países dos entrevistados, ampliando a compreensão do leitor sobre os riscos e silêncios enfrentados por essas pessoas ao redor do mundo.
Com apresentação de Fábio Mariano da Silva (PUC-SP) e orelha assinada por Serginho Groisman, Cartas Fora do Armário é um livro sobre o poder da escuta, da reconciliação e da coragem de quebrar o silêncio — mesmo que tardiamente. - Compre aqui! (Disponível também na versão digital pra kindle)
Sobre o(a) autor(a):
Fred Itioka é jornalista e roteirista do programa Altas Horas (TV Globo), com passagens pela Rádio Cultura, TV Cultura, Rede Record, E! Entertainment Television e colunas literárias em publicações do Brasil e do Canadá. Cartas Fora do Armário é seu primeiro livro.
Beijos!



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