03 setembro, 2017

ENTREVISTA #2 | Autor Michel Platini Fernandes


Oi gente, segunda entrevista aqui do blog (uhuuul), dessa vez é com o Michel, autor de Projeto Recomeço (resenha aqui). Vamos lá:

1 - Como você percebeu que queria ser escritor(a)?
Primeiramente, #FORA TEMER. Segundamente, penso que eu sempre quis ser escritor. Porque sentia que me comunicava bem através da escrita e sentia que escrever era uma forma de dar vazão de forma catártica ao meu universo particular, quando ele não cabe mais dentro de nós. Isso até descobrir que essa profissão não tem aquele glamour e charme todo que pintam. Descobri que não há como produzir em momentos de inspiração nas madrugadas bebendo um uísque e fumando um charuto simplesmente porque não dá para se concentrar escrevendo nas madrugadas desse jeito, não depois de trabalhar o dia todo... Também não tem nada de glamorosa a dificuldade em achar espaço no mercado editorial brasileiro e batalhar sozinho para vender seu livro. A inspiração que faz grandes escritores que admiro na verdade é um percentual pequeno do trabalho enorme que é escrever, publicar e vender um livro. Penso que não seja possível escrever algo bom sem inspiração, mas ela pesa menos que a disciplina, a pesquisa e um pouco de obsessão também.


2 - De onde vêm os seus personagens? São inspirados em pessoas reais?
Muita gente me pergunta isso! E eu acho engraçado porque quando paro para pensar Mara, Menezes e Costa têm muito de pessoas que conheço e admiro, talvez alguns caracteres até de mim mesmo. Mas não foi intencional, eles são resultado de uma pesquisa para a trama e foram nascendo ao longo da escrita, sendo reconstruídos a cada releitura, a cada pente fino para melhorar o formato final.

3 - No início, que tipo de escritor/livro te influenciou?
Sou fascinado por literatura fantástica, em especial a Ficção Científica. E amo cinema também. Aos 11 anos, meu irmão mais velho trouxe da biblioteca da Escola Técnica onde estudava “A volta ao mundo em 80 dias” de Julio Verne e fiquei fascinado. Foi o primeiro livro que li com prazer, porque aqueles livros paradidáticos da escola pareciam todos chatos. Ele lia muito Agatha Christie, Sir Arthur Conan Doyle e acabei desenvolvendo o gosto por romances de detetive. Meu irmão e minha mãe devoram livros, então aquilo meio que me marcou na infância e adolescência. Mas, diferente deles, sempre fui muito seletivo. A paixão pela literatura mesmo só veio depois do mestrado, porque durante oito anos eu só tinha tempo para ler coisas ligadas às disciplinas e minhas pesquisas na universidade e meu trabalho nos museus. Só depois que virei professor me dediquei sistematicamente a ler coisas do meu interesse. Foi aí que apareceram referências importantes no meu trabalho como Isaac Asimov, Carl Sagan, Arthur C. Clarke, Philip K. Dick, Edgar Alan Poe e Raymond Chandler.


4 - Qual de seus personagens é seu favorito? Por que? O que ele significa para você?
Difícil responder. Porque todos têm características muito especiais e foi muito gostoso construí-los. Ontem à noite eu estava lendo poesia então hoje vou ficar com o Embaixador Menezes... É um personagem complexo, devotado ao trabalho, ético, mas de uma ética que está acima dos códigos e leis. Ao mesmo tempo é um homem que vê a vida com uma leveza admirável, resignado quando acredita que o melhor está por vir, ou quando não há nada mais que possa ser feito. Leva certa dose de hedonismo e vaidade, é verdade, mas acredito que bem dosadas elas podem ser virtudes. Pensando bem agora, Menezes me lembra Marlon Brando em "Don Juan de Marco".
Se fosse perguntado amanhã, talvez responderia Cairara, um personagem que surge sem muito alarde e vai crescendo na história, amadurecendo, se descobrindo e ajudando os outros. E o mais importante, ele aprende a reconhecer suas limitações.

5 - Projeto Recomeço é um livro futurístico, você utilizou algum material como referencia, ou foi pura inspiração?
A referência principal é o jornal matinal. Qualquer um deles, em qualquer mídia (TV, rádio, Internet). É só parar um pouco para pensar sobre as notícias que circulam para percebermos que o universo de “Projeto Recomeço” é basicamente o nosso, porém com uma catástrofe clara e objetiva à frente em um futuro próximo. Nossa catástrofe é diária e dispersa e as pessoas não param para pensar nisso, não se tudo estiver funcionando como planejado. Os refugiados são enxotados de seus países em guerras que as potências travam por recursos, nosso grau de humanidade é medido em termos de fronteiras, a crise climática causa eventos cada vez mais extremos e continuamos achando que eles são isolados, continuamos movendo o mundo a carvão e petróleo porque mudar a matriz energética de forma brusca teria um impacto negativo na indústria. Basicamente, o universo absurdo do “Projeto Recomeço” é o nosso próprio, uma vez que ficamos atentos ao mundo ao nosso redor.

6 -  Quais são seus projetos para um futuro próximo? Pretende lançar mais livros?
Antes de lançar o “Projeto Recomeço” para o público, fiz uma pesquisa com um grupo de dez amigos e amigas para testar a trama, depois enviei um questionário a todos para avaliar a experiência com o livro. Uma das questões perguntava sobre se a história tinha um final conclusivo ou se despertava o interesse para uma continuação. A maioria apontou uma continuação. Mas agora estou envolvido com outros projetos da minha vida acadêmica e não conseguiria me dedicar a isto. Mas quem sabe depois?

Muito obrigada pela atenção, Projeto Recomeço com certeza me marcou, e espero que marque muitos outros leitores, gostaria de deixar algum recado para seus futuros leitores?
Gostaria que os leitores pensassem a ficção (qualquer delas) não como um projeto político pronto e acabado, não como uma teoria, mas como um exercício, ou um campo de possibilidades. A ficção geralmente faz as vezes de utopia, mas nos escapa que ela está mais para uma caricatura de nossa própria realidade, feita com traços grosseiros, com um nariz enorme ou orelhas pontiagudas, para escrachar as características que deixamos passar por estarmos sempre distraídos com nossas telas coloridas e botões. Vivemos um momento político conturbado e a grande mídia alardeia que o país vai pegar fogo na semana que vem, ou na seguinte. Penso que devemos refletir acerca do papel que queremos desempenhar nesse cenário, se de consumidores (ou replicadores) passivos de informação que não conhecemos a fundo, ou de agentes da mudança e protagonistas do mundo que queremos.

Sobre o autor: 

Professor do Departamento de Museologia no Campus de Laranjeiras, na Universidade Federal de Sergipe. Possui experiência ministrando disciplinas e cursos nas áreas de Teorias da Museologia, Planejamento e Montagem de Exposições Museológicas, Patrimônio Natural, Ética em Museologia, Pesquisa em Museologia, Patrimônio de Ciência e Tecnologia.
Interessado em relações entre a Museologia e o gênero Ficção Científica e seus desdobramentos na Literatura e no Cinema; e nas relações entre Cultura, Natureza e Patrimônio.
Mestre em Museologia e Patrimônio pelo PPG-PMUS da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST/MCT) onde pesquisou a relação entre as categorias Coleção, Colecionador e Museu. Foi Diretor Técnico do Museu da Imagem e do Som do Ceará (2009-2010). É graduado em História pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) onde pesquisou os processos de seleção do acervo fonográfico da Casa de Cultura Christiano Câmara, em Fortaleza-CE. Tem experiência em pesquisa, planejamento e montagem de exposições museológicas.


Gostaram da entrevista? Já conheciam o trebalho do autor? Me conta aqui nos comentários. 

Beijos!

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