20 maio, 2018

ENTREVISTA #26 | Autor Heitor Vasconcelos Serpa


1 - Como você percebeu que queria ser escritor?
Começou no Ensino Médio. Eu me sentia muito mais à vontade enquanto trabalhava numa história, como se aquilo fosse a única coisa a fazer sentido no meio de todas a cobrança para entrar numa faculdade pública. Eu cheguei a entrar em uma, mas saí depois de dois anos para me formar em História pela UGF. Uma vez, um colega de curso chamou minha atenção sobre a caligrafia: ela ficava muito mais "equilibrada" quando eu escrevia ficção, mais calma, fácil de compreender. Posso afirmar que aí se concluiu meu "ponto de virada": é na carreira de escritor que eu completo aquele 100%. Após mais de dez anos fazendo isso, não adianta mentir para mim mesmo.


2 - Tem algum personagem favorito? Se sim, por quê? O que ele significa para você?
Meu tipo de personagem ideal é aquele com defeitos. Apesar de curtir um bom maniqueísmo (os clássicos de literatura fantástica seguem esta linha), me interesso mais por personagens como os do "Corcunda de Notre-Dame" da Disney, Macunaíma, Policarpo Quaresma, e pelos Luís da Silva e Julião Tavares que povoam nosso mundo. Também sou fã de narradores não confiáveis, como o Capitão Nascimento: muita gente não entendeu que "Tropa de Elite" estava distorcido para o ponto de vista de um cidadão que só conhecia a guerra como resposta para os problemas da sociedade. A complexidade das relações humanas, para mim, é prioridade no momento de se produzir uma ficção memorável; creio que a concepção de "Aleros" segue este molde. O protagonista é um ícone dentro de seu mundo, mas está longe de ser um herói.

3 - Foi difícil chegar até uma editora e publicar seu primeiro livro?
Sim. Eu fui muito criterioso em minhas seleções, mandei original para as que publicavam modelo tradicional, e para as que faziam aquisição com trabalho editorial de fato, ao invés de serem apenas gráficas.  Foi daí que eu conheci a Editora Skull. Eles foram atenciosos e muito acessíveis. acompanhei de perto o processo de revisão e diagramação de "Aleros", e o que vi foi um trabalho de qualidade com excelente custo-benefício. Posso dizer que acertei no meu filtro, não tenho do que reclamar deles até agora.

4 - Você faz muitas pesquisas antes de escrever uma história?
Sim, e como! É impossível ser autor de literatura fantástica sem uma base sólida de pesquisa: o autor tem que conhecer o gênero e o que vai além dele, estudar arquétipos e detalhes técnicos que fazem a diferença na hora de construir seu próprio universo. Nós trabalhamos com o impossível, mas este impossível tem que fazer sentido dentro de si mesmo, com idiomas diferenciados, calendários, religiões, sistemas de magia, e o que mais for necessário para o plano de fundo que o leitor mergulhará de cabeça. A graduação em História é uma grande aliada neste sentido: a partir do conhecimento dos eventos daqui, posso traçar uma linha do tempo adequada, com aspectos sociais e econômicos verossímeis para o leitor. No entanto, todo esse saber não me ensinou noções de esgrima, defesa pessoal, e como fazer uma arma funcional a partir de uma corrente para "Aleros". São mais de 70 arquivos no Evernote só para a parte de construção do mundo ("worldbuilding"), mais dois cadernos físicos lotados de conteúdo.

5 - Existem muitas cobranças por parte de seus leitores?
Por enquanto, a cobrança está em torno do envio dos livros comprados pela loja, e quem deseja comprar em mãos me pergunta sobre quando eu terei minha parte da tiragem. Acredito que, depois da leitura, alguns queiram me enforcar por causa do final, e outros desejem uma continuação para ontem!

6 - Por que motivo escolheu esse gênero?
Por conta da liberdade para explorar diversos aspectos da sociedade através do fantástico. Com o gênero fantasia, podemos chamar atenção para problemas reais de maneira inclusiva. A saga de Harry Potter, por exemplo, levou para leitores de todas as idades e classes sociais uma lição sobre o poder do conhecimento, tanto para o bem quanto para o mal, e como uma sociedade pode ser tão avançada quanto cruel. Existem carros voadores e quadribol, mas também há a necessidade de uma prisão com dementadores e a ascensão de uma seita que não tolera "sangue ruim". Em "Aleros" eu exploro a glorificação da violência como parte do cotidiano, cenas grotescas suavizadas pela capa do entretenimento, fazendo das mortes e violações apenas mais um conjunto de histórias para se trocar com amigos durante uma reunião em casa. Tipo a vez que fulano foi assaltado no ponto, ou o sicrano que morreu na esquina ontem à noite... Também falo dos diversos tipos de ódio enraizados dentro e fora da lei, do egoísmo e todas as suas consequências para a sociedade.

7 - Quais são seus projetos para um futuro próximo? Pretende lançar mais livros?
Tenho um original na gaveta que está em processo de maturação. É uma releitura da Divina Comédia de Dante Alighieri pelos olhos de uma adolescente suicida, com robôs gigantes e doses cavalares de humor ofensivo. Foi o projeto mais inusitado que já escrevi, e os leitores beta estão falando em potencial para virar best-seller! Oremos para que estejam certos... Quanto ao Mundo-Prisão, quero dar continuidade com histórias fechadas em si, como fiz com "Aleros". Não me vejo escrevendo trilogias nem sagas, mas uma quantidade de histórias interligadas por referências em comum, que o leitor possa selecionar as favoritas sem a obrigação de conhecer o que veio antes ou depois. Algo como o Castle Rock, de Stephen King. No momento, tenho roteiro para quatro histórias possíveis após "Aleros". Resta escolher qual será a próxima.

Gostaria de deixar algum recado para os leitores do Lost Words, e para seus futuros leitores?
Gosta de histórias repletas de ação? Gosta de linguagem adulta, realista para quem vive na espera da próxima porrada da vida? Gosta de conspirações e demônios ocultos? Então "Aleros" é a história ideal para a sua biblioteca! Esta primeira edição vem acompanhada de um mapa INCRÍVEL para te orientar nesta e nas próximas histórias do Mundo-Prisão.

Sobre o Autor:

Heitor Vasconcelos Serpa nasceu em 1990 e cresceu na zona norte do Rio de Janeiro. Graduado em História e com o objetivo de viver através da escrita, possui mais de dez anos dedicados ao seu universo de fantasia original, o "Mundo-Prisão", do qual o romance "Aleros" faz parte. Também escreveu roteiros de HQs, participou de antologias físicas e virtuais, incluindo uma finalista ao Prêmio Argos de 2017, além de contribuir para diversas produções independentes. Atualmente trabalha como secretário e fundador da "Associação de Artes do Brasil", entidade que visa divulgação e valorização de todos os tipos de produção cultural.


Sobre sua obra: 

Sinopse: Um dos gladiadores mais talentosos dos últimos tempos mergulha na vida de estrela para esquecer as próprias vergonhas. Após três anos, no auge de sua carreira, ele está prestes a se perdoar, mas os fantasmas ganham vida e, junto deles, uma terrível conspiração para libertar um mal ancestral.
Esta é a história de terras onde a violência é espetáculo e o ódio alimenta demônios. Esta é a história de Aleros e do Mundo-Prisão.






Gostaram? Me conta aqui nos comentários.

Beijos!

15 comentários

  1. Oi Aline!
    Eu sempre gosto quando você posta essas entrevistas pois assim posso conhecer os autores nacionais. Esse livro eu já tinha visto e a parece ser bastante interessante a história, a capa achei muito maneira. Desejo sucesso para o autor.

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  2. Oi Aline,
    Eu achei bem interessante a forma como ele falou do seu personagem ideal e da forma que ele abordou Harry Potter. Só com essas respostas dele, já fiquei louca para ler o livro dele. KK

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  3. Acho que tratando-se de um pedaço da gente, temos que ser realmente critériosos e fico feliz que o seu encontrou uma casa. Seu gênero parece bem difícil pra mim, eu nunca conseguiria tal coisa, ahaha. Desejo sucesso, fico feliz de ver tantos autores nacionais aqui com obras tão incríveis.

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  4. Oi, Aline.

    É sempre muito bom contemplar sobre a história da escrita de mais um de nossos autores.

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  5. Obrigado pelo espaço! Fico feliz por despertar a curiosidade de leitores em potencial. Espero que gostem de Aleros!

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  6. Já quero ler "Aleros", principalmente pelo que o Heitor falou sobre a complexidade das relações humanas, pois concordo demais com isso e adoro livros do tipo, que desenvolvam relações assim! E, lendo a sinopse, já sei que vou gostar muito!

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  7. Mais uma vez arrasou com essas entrevistas
    Gostei muito quando ele falou que gosta de personagens com "defeitos",que é algo que tmb gosto♡
    Esses autores brasileiros são maravilhosos♡

    ♡♡♡

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  8. Oi, Aline!
    Fico muito feliz em conhecer mais uma autor, espero ler Aleros.
    Sucesso, beijos

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  9. Achei muito incrível a premissa da história, logo eu que sou apaixonado por livros de fantasia com tons meio adultos (a sinopse me deu a impressão de ser algo como As Crônicas de Gelo e Fogo, apesar das histórias não serem tão parecidas assim). E parabéns ao autor pela dedicação e pela criatividade. Sério, quem pensaria numa releitura de A Divina Comédia com robôs gigantes? Hahaha, beijos!

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  10. Nossa, adorei as referências citadas nessa entrevista e fiquei feliz em saber que sou uma leitora que também tem como favorito os personagens 'defeituosos'.
    Gostei muito de saber sobre a obra e o possível lançamento da releitura de Divina Comédia, com certeza vou entrar para lista de leitores do Heitor.

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  11. Não conhecia o Heitor nem seu livro.
    Posso dizer que não é um tema que me interessa muito, mas posso recomendar pra muitos amigos que sei que vão adorar.
    Bjos!

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  12. Olá! Também amo protagonistas com defeitos, acho que trás mais verdade. Adoro histórias com fantasia, onde é possível conhecer lugares incríveis que não fazem parte do no dia-a-dia. E já curti bastante esse novo projeto hein, por favor, que venha logo.

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  13. Olá!
    Essas entrevista servem muito pra nos mostrar o quanto autor bom a gente tem na nossa terrinha e nem imagina.
    Heitor é mais um deles, desejo que tenha sorte e sucesso.
    Bjs!

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  14. eu não gosto desse gênero
    mas vou esperar sua resenha para ver se compensa ler
    gostei das respostas do autor
    parece ser gente boa

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  15. Só conhecendo atores q me despertam a curiosidade (mesmo tendo medo kk).
    Tai, ALine, onde os descobrem??????
    A cada vez livros e mais livros nacionais, pode nos contar a fonte ??????kk
    Aleros já add no skoob.

    Bjsss

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