19 agosto, 2018

ENTREVISTA #39 | Autor Everaldo Rodrigues


1 - Como você percebeu que queria ser escritor?
Eu escrevo desde pequeno, então meu gosto por escrever veio junto do meu gosto pela leitura. Eu lia muitos quadrinhos, e eles foram minha primeira influência. Quando criança, eu já inventava historinhas para ler para minha irmã, ou então ficava horas e horas misturando personagens de desenhos animados que eu gostava e criando minhas próprias histórias com eles na minha cabeça. Na pré-adolescência eu conheci o romance policial com Arthur Conan Doyle e Agatha Christie, e foi quando comecei a pensar em ser escritor. Depois a onda passou, e eu só fui reencontrar a escrita já perto dos dezoito anos, quando conheci os livros do Stephen King. Eles me trouxeram de volta para a escrita. Foi quando eu comecei a ter minhas próprias ideias e a pensar “olha… eu quero escrever algo assim.” Daí, não teve mais volta.

2 - Tem algum personagem favorito? Em modo geral ou do seu(s) livros? Se sim, por quê? O que ele significa para você?
Dentre os livros que li, meu personagem favorito ainda é o pistoleiro Roland Deschain, da saga “A Torre Negra”. Dentre os dos meus livros, gosto de vários, não sei se seria justo mencionar um e deixar outros para trás… mas tenho um carinho especial pelo Zé Mindim, do mais recente “O Capeta-Caolho contra a Besta-Fera”. Ele é engraçado e natural, e oscila entre grande medo e muita coragem, então acho ele bem humano.


3 - Como foi para você, entrar no mundo literário e publicar seu livro?
Houve dois momentos cruciais. O primeiro foi “descobrir” a plataforma de auto publicação da Amazon, a KDP. Eu tinha vários contos e queria mostrá-los para pessoas além dos meus amigos mais próximos. Foi com ela que eu pensei “tá, eu posso publicar, eu posso ir além do amigo pra quem eu mostro meu texto. Eu posso levar minhas histórias para outras pessoas.” Esse foi um passo muito importante. O segundo momento, e o mais tenso, mais decisivo, foi sair de um emprego estável no qual eu trabalhava há mais de cinco anos para tentar viver de escrita, para arriscar na carreira exclusiva de escritor. Foi um passo muito difícil, porque envolveu muitas coisas, dinheiro, carreira, estabilidade, confiança… foi mesmo uma época muito tensa. Mas eu tive muito apoio, da minha esposa, da minha família, dos leitores. É difícil, melhor, quase impossível viver só de escrita no Brasil, e eu aprendi isso logo. Você tem que se envolver no mercado, trabalhar em coisas paralelas, passar um sufoco às vezes. É o único jeito. Não tem jeito fácil, sabe, ou melhor, até tem, para quem já nasceu em berço de ouro. Mas se você precisa pagar o aluguel ou fazer as compras do mês, é complicado. Eu estou colhendo ótimos frutos agora, o que me faz não me arrepender da decisão que tive. Publicar o livro, no fim das contas, é só um detalhe dentro de todo um panorama de divulgação, de interação com leitores, com blogueiros, com outros escritores… mas tem sido uma experiência maravilhosa. Como disse, não me arrependo.

4 - Você faz muitas pesquisas antes de escrever uma história?
Eu faço uma pesquisa relativa. Cada trabalho, a meu ver, necessita de menos ou mais pesquisa. Conheço escritores que só conseguem escrever um livro depois que reúnem uma grande bagagem sobre o assunto, outros que pesquisam pouco ou quase nada, e só depois do livro pronto que vão lá, ajustando as coisas de acordo com os fatos. Eu estou no meio termo. Acredito que o escritor não deva escrever sobre algo que não conheça, sabe? Então, pesquisar é essencial, nem que seja para dar um start na história. Com meu livro mais recente eu pesquisei razoavelmente sobre cangaço, que já era um recorte histórico que eu adorava. Mas por outro lado, eu sabia que não queria encher meu livro de dados e fatos que não acrescentariam nada à história. Como o próprio King diz, a pesquisa tem que ser em função do seu livro, e eu gosto de agir seguindo essa linha.

5 - Existem muitas cobranças por parte de seus leitores?
Meus leitores são maravilhosos. Tive sorte de conquistar leitores que estão comigo há anos, que se tornaram até mesmo meus amigos. A cobrança que eu espero que eles sempre façam é por uma boa história, e até o momento, acho que está tudo correndo bem.

6 - Fale um pouco sobre sua forma de criação. Tem alguma mania na hora de escrever?
Não diria que são manias, mas tenho costumes que são naturais a muitos escritores, como por exemplo gostar de escrever num lugar reservado, isolado, sem gente passando toda hora pra lá e pra cá, mas reconheço que essa não é a realidade de todos, então tenho sorte por poder ter meu canto separado para escrever. Gosto de colocar metas diárias de escrita, mil ou duas mil palavras, e só me levanto da cadeira quando esse número sai, o que nem sempre acontece… mas aprendi a perceber quando o texto não quer sair, ou não está pronto pra sair. Das coisas que considero manias mesmo, acho que é escrever ouvindo música. A música está na minha vida na mesma intensidade que a literatura, ou até mais às vezes, porque é muito mais fácil ouvir música o tempo inteiro do que ler o tempo inteiro. Para escrever, escolho algum disco do Slayer ou alguma playlist de metal, e o resto funciona. A maioria dos meus livros foram escritos com essa trilha sonora. Me ajuda muito, me empolga.
Eu gosto de escrever num processo contínuo, durante dois, três meses, mas já aconteceu da escrita de um livro durar até um ano. Só depois da primeira versão do livro pronto (e de me afastar dele por alguns meses) é que eu o pego de volta para revisar e reescrever. Mas não é uma regra, também conheço escritores que vão relendo e acertando enquanto escrevem. O que vale é o que funciona para você. Conheço gente que não consegue escrever uma palavra enquanto ouve música, então acho que o mais importante para o escritor é, antes de tudo, descobrir o que funciona para ele.
Quanto à criação em si, depende muito. Geralmente o começo e o final da história já surgem na minha mente, e eu só preciso inventar o meio. Mas já aconteceu de a história vir inteira, ou então só o começo. Quando só vem o começo, é mais difícil, mas geralmente mais gostoso, mais desafiador. Foi mais ou menos o que aconteceu com “O Capeta-Caolho contra a Besta-Fera”.

7 - Quais são seus projetos para um futuro próximo?
Estou trabalhando bastante em contos para antologias das quais participarei. Ainda não estou pensando em lançamentos, porque “O Capeta-Caolho…” está bem recente, e a recepção tem sido ótima. Então, por enquanto, eu quero apenas continuar escrevendo e levando essa história para mais e mais leitores.

Gostaria de deixar algum recado para os leitores do Lost Words, e para seus futuros leitores?
Claro! Gostaria de convidar todos para conhecerem minhas histórias, especialmente o recente “O Capeta-Caolho contra a Besta-Fera”, uma novela de terror que colocar um grupo de cangaceiros enfrentando um lobisomem no sertão dos anos 1930; agradecer muito pelo convite para esta entrevista ao Lost Words; e dizer que uma das coisas mais importantes para nós, principalmente neste Brasil atual, tão confuso e tão cheio de ódio e ignorância, é o livro. Vamos dar não só valor ao livro, à literatura, mas usá-lo como instrumento verdadeiro de conhecimento e cultura. Só a leitura, a cultura e a educação vão nos colocar no rumo certo. Um forte abraço a todos os leitores e leitoras.

Sobre o Autor:

Everaldo Rodrigues nasceu em Diadema, São Paulo, e é escritor independente. Publica seus contos pela Amazon/KDP e Clube de Autores. Membro da ABERST, Associação Brasileira dos Escritores de Romance policial, Suspense e Terror, é autor dos livros de contos "Passeio Noturno - Vol. 1" e “Vol. 2”, do romance "Horário de verão" e das novelas “Um Mau Menino” e “O Capeta-Caolho contra a Besta-Fera”. Além disso, mantém um canal no Youtube, o "Estante Etérea”, onde fala sobre os livros que leu. Mora com a esposa no interior de São Paulo.



Sobre sua última obra:

Sinopse: Sertão. Anos 30. É o auge do cangaço…
Um lobisomem ataca, todo mês, a cidadela de Terezinha de Moxotó, no interior de Pernambuco. Sem ter a quem recorrer, o prefeito e coronel Jesuíno de Cândida contrata o bando do cangaceiro Jeremias Fortunato Silveira, conhecido como Capeta-Caolho, figura aterrorizante, tão maléfica quanto o monstro que os ataca, na esperança de que o bandido terrível dê cabo da besta-fera. Mas quando os cangaceiros chegam na cidade, o povo entende que combater o mal com o mal nunca é a melhor escolha.








Gostaram? Me conta aqui nos comentários.

Beijos!

19 comentários:

  1. Gostei da entrevista. Vou procurar materiais sobre o referido autor.

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  2. Quando eu era criança adorava escrever histórias também, minha imaginação ia longe no mundo da fantasia. Ahhh, música é algo que me agrada ao escrever algo, da mesma forma que agrada ao autor. Adorei a sinopse de sua última obra, criei interesse em ler!

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  3. Adorei conhecer esse autor e sua última obra. Vou adquirir.

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  4. Tão gostoso isso de poder saber um pouquinho mais sobre a vida de cada autor, da forma como ele escreve ou como ele chegou realmente a acreditar em tudo que poderia fazer pela literatura!
    Não conhecia o moço, mas já sou super fã pela música que ele ouve para compor seus enredos.rs E por saber também que está vindo contos por aí!!!
    Beijo

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  5. Essa união da escrita com a música é sempre boa. Espero que o autor continue escrevendo e obtenha muito sucesso tanto com novos títulos quanto com O Capeta-Caolho contra a Besta-Fera.

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  6. Adorei a entrevista, conhecer o livro e conhecer sobre o autor.
    Achei bem legal o título "O Capeta-Caolho contra a Besta-Fera" e muito diferente (nunca vi nada do tipo).
    Infelizmente aqui no país é bem arriscado viver da escrita e foi um passo enorme esse de sair do emprego - confesso que se fosse comigo, não sei se teria a mesma coragem.
    Boa sorte em sua nova jornada!!

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  7. Aline!
    Que nome inusitado do livro.
    Bom ver que ele se aventurou na Amazon para publicar seus contos.
    A entrevista está arrasadora.
    Uma ótima semana!
    “O amor é a força mais sutil do mundo.” (Mahatma Gandhi)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA AGOSTO - 5 GANHADORES - BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

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  8. Gostei da entrevista, de saber mais sobre o autor, nem conhecia, achei legal dele falar sobre sair do emprego e se dedicar a escrever, não deve ter sido nada fácil, a dificuldade que passou, mas ainda bem que agora esta dando tudo certo, achei interessante a sinopse do livro.

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  9. Sempre interessante a parte das manias de escrita. Agatha Christie que tem a ideias das histórias na banheira, Dan Brown que faz flexões e abdominais nos intervalos que está escrevendo... e isso de largar muita coisa pela escrita, a exemplo de mim mesmo rsrs a sociedade pode considerar loucura mas vejo que é tão comum entre os escritores

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  10. Este Autor ainda eu não conhecia, é sempre interessante saber um pouco mais sobre eles hehe, sem contar que achei engraçado o nome do livro, perdão ao Autor por isso, mas achei engraçado mesmo, vou procurar a obra para conhecer melhor.

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  11. Ainda não conhecia o autor, mas me identifiquei muito com os gostos literários dele. Achei bem interessante o livro ter essa pegada de terror, mas ainda assim conservar um cenário e personagens tipicamente brasileiros. Acho que isso não só enriquece, mas também torna mais crível a história para o leitor já ambientado nesse universo.

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  12. Oiee!
    Achei a ambientação do livro muito interessante, como nordestina que sou, gosto de ver nossas belezas ganhando seu devido valor, e confesso que nunca li nada nesse ambiente, a não ser um ou outro cordel.
    A entrevista ficou show, vou pesquisar mais sobre o autor e suas obras.
    Bjs!

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  13. Adorei a entrevista e a as ideias do autor a entrevista ficou realmente arrasadora e me interessei muito pelo livro principalmente com esse título

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  14. Olá! Olha que eu achei o título desse último livro bem criativo, a história parece ser bem diferente e bem assustadora, escrito com essa trilha sonora tinha que ser algo assim bem intenso.

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  15. Oi, Aline
    Obrigada por trazer mais um autor nacional, ainda não conhecia.
    Ainda bem que para Everaldo deu certo viver só da escrita, porque para alguns é difícil conseguir viver só de escrever.
    Gostei da premissa de O Capeta-Caolho contra a Besta-fera, quero ler um dia fiquei curiosa.
    Beijos

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  16. Já li sobre ele em algum lugar, mas não li nenhuma resenha sobre seus livros. Tai, o cagaço era um assunto que me deixava intrigada na adolescência, hoje pra ver um filme já preciso de notas, recomendaçoes e etc. Cara, ainda bem que essas plataformas de publicações estão vindo, dando oportunidade a todos, podendo ser no wattpad ou amazon, a forma não importa, e sim que todos tem a chance de descobrir um nicho para as leituras. É engraçado como alguns tem manias, outros não, como para mim alguma coisa que o autor(a) nao considera mania mas eu considero, nosso país é bem diversificado e isso é muito bom. Viva aos nacionais, que eles cresçam a cada dia mais.

    Bjsss

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  17. Muito bacana essa entrevista.
    O autor parece escrever bem e achei muito corajoso largar um trampo pra viver da escrita, o que sabemos não ser nada fácil no Brasil, mas só lutando que conseguimos realizar nossos sonhos né. Parabéns.
    Anotado aqui, vou procurar os contos na amazon.
    bjsss

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  18. Curti a premissa do livro, fez uma mistura que aparentemente não combinam como cangaço e lobisomem. Muito interessante.

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  19. Oi Aline
    Adorei conhecer o autor, conheci agora, através do seu blog, e adoraria ler sua resenha do livro dele, já tem ela disponível?
    Admirei ele pelas respostas e coragem que teve, desejo muito sucesso a ele
    bjosss

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