ENTREVISTA COM AUTORES #87 | Autor Caio Sales

by - sexta-feira, julho 31, 2020


1 - Como você percebeu que queria ser escritor?
Meu gosto por desenhar me acompanha desde a infância, e com ele foi surgindo essa vontade de escrever histórias para os personagens que eu criava em minhas artes. Desde criança eu já produzia meus quadrinhos e meus pequenos contos, criando personagens e universos mirabolantes, sempre tocados pela temática fantástica e seus infindos heróis, poderes, e criaturas. Acredito que o momento em que descobri que aqueles personagens dos gibis e da TV eram desenhados e escritos por alguém – quando criança, pensamos que eles magicamente existem – foi a grande virada para sonhar com as profissões de desenhista e de escritor, desde cedo.

2 - Tem algum personagem favorito? Em modo geral ou o seus livros? Se sim, por quê? O que ele significa para você?
Falando primeiramente dos meus personagens próprios, entre os que já foram publicados, fica até difícil escolher, mas tenho um favorito. O Agente 303, presente na flash fiction O Mutante e a Besta, é um deles. Esse personagem foi um dos primeiros que criei, anos atrás, antes de tornar-me de fato um escritor e publicá-lo de forma independente em 2019. Ele tem habilidades especiais e um visual que eu gosto bastante, além de uma personalidade excessivamente confiante e egocêntrica, que, apesar de ter
seus motivos, é difícil de lidar com ela. Gosto de trabalhar com personagens imperfeitos, então ainda haverá um futuro arco para testar seu orgulho e os motivos que contribuíram para tal. Agora, falando em modo geral, não apenas por representar todo o universo incrível que seu autor traz, mas também por ser um personagem que estava fadado a seguir por um caminho obscuro e destrutivo, e mesmo assim conseguiu fazer seu próprio destino, Hellboy é o personagem que mais gosto, e sua obra é minha maior influência. Sua personalidade debochada também traz uma dose certa de humor em suas histórias, que trabalham com diversos temas que eu gosto. Por inspirar-se na literatura pulp e seus investigadores paranormais, e principalmente por trazer lendas de folclores variados, o rico universo criado por Mike Mignola em torno do Hellboy complementa ele como meu personagem favorito.

3 - Como foi para você, entrar no mundo literário?
Tem sido uma jornada muito interessante, que tem me proporcionado descobrir novas obras e conhecer muita gente boa dentro do mercado nacional. Posso afirmar que todo o processo iniciou-se com meu trabalho como ilustrador e a temática mitológica que aplico nele. Para participar do meu primeiro Artist Alley eu sabia que precisava de algo mais, além das artes que iria levar. Foi então que criei meu primeiro fanzine, Os Filhos de Tau e Kerana, que posteriormente ganhou mais páginas com uma pesquisa ainda mais aprofundada. Contando lendas do folclore paraguaio através de um breve bestiário, ele foi essencial para apresentar não só meu trabalho artístico ao público, mas também minha escrita.
Ao perceber que as pessoas estavam gostando dos textos sobre minhas pesquisas de criaturas lendárias, eu decidi divulgar também meus personagens próprios e suas histórias. Ingressar no mundo literário ajudou a tornar-me colunista de um tradicional jornal aqui da minha cidade, a Gazeta Bragantina, me abrindo portas para falar semanalmente sobre lendas do folclore brasileiro. Poder externar ideias, e também poder divulgar culturas menos difundidas, através da arte e da escrita, é o que me move.

4 - Você faz muitas pesquisas antes de escrever uma história?
Sim. Realizo pesquisas todos os dias. O fato de buscar abordar em minhas histórias aquelas lendas de culturas não tão difundidas tornam a pesquisa uma tarefa primordial e bastante ampla. Faço isso pois acredito que diversas mitologias mundo afora são tão ricas quanto aquelas que já se fazem fortemente presentes em muitas obras que compõem as diversas áreas do entretenimento.

5 - Existem muitas cobranças por parte de seus leitores?
Não sei se cobrança seria a palavra certa, mas existe uma certa expectativa sobre as pesquisas que vou fazer, sobre qual lenda, ou qual país, irei falar – gosto muito de receber relatos e sugestões de novas lendas por parte dos leitores. Há também uma certa curiosidade para desbravarem mais elementos do universo que venho apresentando pouco a pouco em minhas flash fictions da Organização Enigma.

6 - Fale um pouco sobre sua forma de criação... Possui alguma mania na hora de escrever?
Falando primeiro sobre a forma de criação, a parte das pesquisas, já citada anteriormente, está intrínseca ao meu trabalho, justamente por lidar com temas que envolvem muitas culturas diferentes. Então estou sempre amparado por livros em minha mesa, e por sites com artigos acadêmicos. Já a concepção de mundos e personagens surge de uma forma mais intuitiva, as vezes a inspiração vem de onde menos imagino, mas essencialmente há algo como um reflexo de tudo o que venho absorvendo ao longo do tempo, sejam eles livros, quadrinhos, games, filmes, séries, ou até mesmo músicas. Quanto à mania, não tenho algo que precise fazer rigorosamente antes, ou para conseguir escrever, mas prefiro estar no meu escritório, sabendo que as obras literárias que eu gosto estão ali por perto.

7 - Quais são seus projetos para um futuro próximo?
Estou com dois projetos com a Editora Skript, ambos relacionados a Lovecraft, voltados para o meu trabalho como ilustrador. Já falando especificamente sobre a escrita e projetos pessoais, com o esgotamento dos seus exemplares da versão física, irei lançar de forma independente neste segundo semestre a versão digital da minha obra Missões Continentais, que traz minhas flash fictions sobre a Organização Enigma, aproveitando para incluir novas histórias nela.

Gostaria de deixar algum recado para os leitores do Lost Words, e para seus futuros leitores?
Os leitores, com todo seu interesse por descobrir novas lendas, novos mundos, e novos personagens, são os motores essenciais de todos os projetos, por isso eu quero agradecer imensamente àqueles que me acompanham, pois é muito importante ter pessoas apoiando a literatura nacional. Tal apoio aos escritores também é algo que o Lost Words faz, então fica aqui meu agradecimento ao blog por todo o trabalho bem feito, e pela oportunidade de poder falar um pouco mais sobre mim. Também convido aqueles que estão me conhecendo agora para me acompanharem nas redes sociais, através do Instagram @caiosales_art, e também pelo meu blog, o My Creature Now. Muito obrigado!

Sobre suas obras:


Sinopse: Os mitos produzidos pela humanidade estão presentes em todas as épocas e lugares. São manifestações culturais que não são fabricadas, mas sim demonstrações espontâneas da mente humana, expressando, de forma simbólica, medos, conflitos, desejos, ou fenômenos da natureza.
No Paraguai, conta-se a história de Tau e Kerana, lenda paraguaia que é calcada na Mitologia Guarani e apontada como uma das mais populares do país. Difundida por Narciso R. Colmán (Rosicrán) em sua obra “Nuestros Antepasados”, de 1937. Neste material, essa lenda será contada através de um bestiário, narrando especificamente sobre os filhos de Tau e Kerana, também conhecidos como "Os 7 Monstros Lendários da Mitologia Guarani".




Antologia Pândega
Coletânea que conta com a minha história em quadrinhos intitulada “Ameaça Africana” – que acontece no mesmo universo da minha história “Missões Continentais”. A trama se passa na Nigéria, onde uma criptozoóloga vai em busca de informações para comprovar a existência de uma das mais temidas criaturas do folclore africano: os Homens-Hiena.
Essa coletânea é formada por grandes revelações do quadrinho nacional, além de autores já consagrados, como Marcatti, André Vazzios, entre outros. Composta por 216 páginas de puro terror, com a presença de 50 autores.
Desaconselhável para menores de 18 anos.


Sobre o autor:


Caio Sales é ilustrador e escritor; além de colunista do jornal Gazeta Bragantina, onde fala semanalmente sobre mitos e lendas que permeiam o imaginário popular – especialmente o folclore brasileiro. Pós-graduando em Marketing, também é criador do blog My Creature Now, produzindo conteúdo sobre criaturas míticas do mundo todo, principalmente aquelas que são menos difundidas, como uma forma de agregar culturalmente com diversidade. Autor das obras: O Imaginário do Mundo: Os Filhos de Tau e Kerana (2019, Publicação independente); Missões Continentais (2019, Publicação independente); Ameaça Africana (2020, Antologia Pândega, Skript Editora). Instagram: @caiosales_art  |  Acesse: www.mycreaturenow.com


Beijos!

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8 comentários

  1. Olá,
    Não conhecia o autor, mas ficou ótima a entrevista.
    Sempre penso que a parte de pesquisa deve ser a mais divertida na hora da escrita.
    Sucesso pra ele.

    até mais,
    Canto Cultzíneo

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    1. Oie, tudo bem?
      Que bom que gostou. Sim, também penso isso haha
      Beijos <3

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  2. Isso de misturar "desenhos", mitos, lendas e enredos fantásticos, é uma mistura que não tem como dar errado!
    Ainda não conhecia o trabalho do ilustrador/autor, mas fiquei de boca aberta com os livros acima e as ilustrações!!!
    Claro que se puder, vou conhecer!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na Flor

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    1. Verdade, eu sou fã do trabalho do Caio <3
      Depois me conta o que achou!
      Beijos.

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  3. Oi, Aline como vai? Muito bacana a entrevista. O que mais gosto do seu blogue são as entrevistas, embora suas resenhas também sejam apreciadas por mim. Abraço!

    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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    1. Oi Luciano, tudo bem e você?
      Fico muito feliz com o seu comentário.
      Beijos!

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  4. Não o conhecia mas já o amei, amo conhecer autores novos.

    Beijinhos,
    Renata

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    1. Também gosto muito de conhecer novos autores, melhor ainda se for nacional :D
      Beijos!

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