ENTREVISTA COM AUTORES #300 | Autora Jessy Oliveira
1 - Qual foi sua inspiração para começar a escrever?
Minha inspiração veio da percepção de como a violência contra mulheres foi normalizada ao longo do tempo. O que mais me incomodava era a forma como essas histórias quase sempre são contadas pela ótica do agressor: o nome do psicopata ganha destaque na mídia, enquanto as vítimas são reduzidas a números e estatísticas, com suas identidades apagadas. A Voz das Vítimas nasceu da necessidade de inverter essa lógica e colocar as vítimas no centro da narrativa, dando voz ao que é silenciado.
2 - Quais autores ou obras influenciaram seu estilo de escrita?
Uma obra fundamental para mim é O Conto da Aia, de Margaret Atwood, por mostrar como a violência contra mulheres pode ser estrutural e socialmente aceita. Também fui influenciada por Stephen King, especialmente em Misery, pelo uso do horror psicológico, e por Gillian Flynn, em Garota Exemplar, pela desconstrução da ideia de vítimas idealizadas. Essas referências ajudaram a moldar uma escrita focada no impacto psicológico e social da violência.
3 - Como você lida com o bloqueio criativo?
Meu processo funciona de forma clara: eu não começo a escrever enquanto a história ainda não está definida na minha mente. Quando não tenho uma ideia estruturada, simplesmente não escrevo. Quando a ideia surge completa, a narrativa flui com naturalidade, sem interrupções forçadas.
4 - Quais desafios você enfrentou durante sua jornada como escritor(a)?
O maior desafio é o impacto emocional do tema. Escrever sobre violência, abuso e trauma exige envolvimento profundo, e não há como passar por isso sem ser afetada. Em momentos mais intensos, preciso interromper a escrita, me afastar e retomar apenas quando estou emocionalmente preparada. Outro desafio é o mercado editorial, que nem sempre acolhe narrativas tão duras e diretas.
5 - Você já teve experiências significativas com seus leitores? Alguma história que gostaria de compartilhar?
Sim. Recebo mensagens com frequência, principalmente de mulheres que dizem que o livro as deixou desconfortáveis e isso nunca vem como crítica negativa. Muitas relatam que precisaram parar a leitura em alguns trechos porque reconheceram situações que já viveram.
Uma mensagem que me marcou foi de uma leitora que disse que, até ler o livro, nunca tinha se considerado uma vítima. Ela sempre achou que violência só existia com agressão física evidente. Durante a leitura, começou a identificar comportamentos de controle, isolamento e manipulação que viveu por anos e sempre justificou. Ela disse que o livro não trouxe respostas prontas, mas trouxe consciência, e que depois disso não conseguiu mais normalizar certas coisas.
Relatos assim chegam com frequência, e o que mais se repete é essa percepção tardia: muitas mulheres só reconhecem a violência quando já estão profundamente dentro dela. Ler esses depoimentos é difícil, mas confirma a importância da obra.
6 - Como é o seu processo de escrita? Você segue uma rotina específica?
Meu processo é intenso e baseado em imersão total. Quando começo a escrever, consigo manter longos períodos de foco contínuo. Não sigo uma rotina fixa de horários, mas priorizo o avanço da narrativa enquanto a história está ativa e fluindo.
7 - Qual é o impacto que você espera que suas obras tenham nos leitores?
Espero que o livro sirva como alerta para que as pessoas não normalizem agressões ou comportamentos abusivos. O perigo muitas vezes não é óbvio; pode vir de alguém que parece inofensivo no início. Quero que a leitura gere reflexão sobre o silenciamento de vítimas, os ciclos de violência familiar e a indiferença social que permite que esses casos continuem.
8 - Quais são seus planos para o futuro? Você está trabalhando em algum novo projeto?
O segundo volume de A Voz das Vítimas já está planejado e acompanhará Matheus em uma busca por vingança contra Edric, aprofundando as consequências psicológicas do trauma.
Além disso, estou lançando a saga A Última Geração, uma distopia de ficção científica. Nela, a cientista Evelyn Arendt cria Aurora, o robô companheiro perfeito, prometendo acabar com a solidão humana. Com o tempo, muitas pessoas preferem relações com robôs em vez de interações humanas, o que leva a uma queda drástica na reprodução natural e ao isolamento social. Quando o governo decide destruir todos os robôs para preservar a humanidade, surge um conflito extremo, com parte da sociedade optando pela autodestruição a abrir mão desses “companheiros perfeitos”. A saga explora a busca obsessiva pela perfeição artificial, a dependência tecnológica e os limites éticos da sobrevivência humana. O primeiro livro da saga será lançado nas próximas semanas.
Gostaria de deixar algum recado para os leitores do Lost Words, e para seus futuros leitores?
Obrigada por se permitirem ler este livro. Sei que não é uma leitura fácil, mas é necessária. Espero que ele funcione como um alerta e que, diferente das vítimas retratadas na obra, muitas pessoas consigam reconhecer os sinais de violência a tempo e construir um futuro diferente.
Sobre sua(s) obra(s):
Sinopse: A Voz das Vítimas: As Fitas Perdidas
Silêncio imposto não é paz. É veneno. E as vítimas o devolvem... gota a gota.
Quando a podcaster Ariadna recebe uma caixa anônima com fitas cassete antigas, ela acha que é mais um caso para seu programa de true crime. Mas ao apertar play, vozes de meninas mortas ecoam no escuro: gritos de dor, segredos enterrados e um assassino que nunca parou.
Em 2025, Ariadna e seu parceiro Matheus mergulham em uma investigação que cruza décadas, de uma cidade amaldiçoada na Califórnia em 1989 até lives aterrorizantes no presente. As fitas revelam um serial killer manipulador, vítimas silenciadas pela sociedade e forças sobrenaturais que exigem justiça. Mas quanto mais perto da verdade, mais o mal se aproxima – e o que começa como podcast vira uma luta pela sobrevivência.
Inspirado em found footage e crimes reais, este thriller de Jessy Oliveira mistura horror psicológico, suspense implacável e uma crítica afiada à violência contra mulheres. Se você ama "Gone Girl" ou "The Haunting of Hill House", prepare-se para noites sem dormir. As vozes não param de chamar... e elas estão esperando por você.
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Sobre o(a) autor(a):
Jessy Oliveira, nascida no interior de Minas Gerais, encontrou nos livros um refúgio essencial em meio a um mundo sombrio e desafiador. Desde a infância, a leitura foi sua âncora, oferecendo escape e compreensão em tempos difíceis. A escrita surgiu anos mais tarde, como uma forma de terapia durante o dia, uma ferramenta para silenciar as múltiplas vozes que ecoavam em sua mente.Autora de narrativas intensas e provocativas, Jessy não busca distrair o leitor, mas obrigá-lo a encarar o pior lado da humanidade. Seus trabalhos mergulham em temas que muitos evitam: violência física e psicológica, trauma, abuso contra mulheres e questões sociais profundas, como o silenciamento de vítimas e os ciclos de dor familiar. Com uma prosa visceral e sem concessões, ela transforma o horror em espelho da realidade, questionando a indiferença social e o peso do invisível.Em suas obra, Jessy tece tramas de horror emocional e sobrenatural, onde vozes perdidas revelam segredos sombrios e traumas não resolvidos, ecoando sua missão de dar visibilidade ao indizível e abordar temas sensíveis com profundidade e respeito. Atualmente residindo em Belo Horizonte, Jessy continua explorando as sombras da existência humana em novos projetos.
Beijos!



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