ENTREVISTA COM AUTORES #303 | Autor Bruno Vial

by - sexta-feira, fevereiro 13, 2026


1 - Qual foi sua inspiração para começar a escrever?
Eu acredito que somos uma confluência de inspirações, experiências, expectativas e atitudes, então torna muito difícil dizer uma fonte ou momento exato. Eu sempre fui uma criança curiosa, imaginativa, mas também analítica e que buscava construir conexões entre as coisas que aprendia, via, experimentava e descobria, o que me levou a criar histórias. Penso que as pessoas têm predisposições para algumas áreas ou conhecimentos, e infelizmente nem todo mundo tem a oportunidade de seguir essas predisposições. Sempre gostei de histórias, narrativas, revistas, jogos, livros, tanto de apreciar quanto de construir. 
Escrever é um desdobramento dessa predisposição que foi e voltou ao longo dos anos, uma marca que permaneceu. Então, tomei a decisão de levar a escrita como algo profissional, mais que um hobby ou diversão. Escrever — no sentido profissional — foi um processo de vida como qualquer outra escolha profissional que fazemos, vinda de minhas aptidões, gostos, oportunidades e atitudes. 

2 - Quais autores ou obras influenciaram seu estilo de escrita?
Quando eu tinha dez anos, na biblioteca da escola, achei um livro “Sete desafios para ser rei” do Jan Terlouw. Eu já lia bastante revistinhas da Turma da Mônica, Disney, livros infantis, mas esse foi o primeiro livro (com mais de cem páginas e sem ser ilustrado) que eu escolhi ler. Quero dizer, ninguém me entregou ou comprou para mim, eu o abri e li inteiro, em pouco mais de uma tarde. Foi uma experiência que me marcou muito e fez com que eu adquirisse o hábito de ler.
Por vários anos tentei achar de novo esse livro, mas só em 2012 que eu o comprei realmente. Acho que ele foi uma grande influência para mim, seja pelas temáticas da história, a forma da escrita, a fantasia com teor político. Outra forte influência foi ter conhecido o RPG. Narrei RPG por muitos anos, e ao longo da vida eu li muito dentro dessa temática, um autêntico geek na adolescência, isso nos anos 1990 e 2000, quando não era algo tão difundido quanto hoje. 
A partir da leitura de fantasia, ficção científica, fantasia urbana veio a vontade de outras formas de história: realismo, clássicos da literatura, literatura contemporânea, em especial latino-americana e brasileira. A leitura me acompanhou a vida toda, e meu interesse pela literatura me levou a procurar pessoas com interesses semelhantes, na adolescência e vida adulta, quando me mudei para Brasília para cursar direito.
Por diversos momentos, não pude perseguir a vontade de me tornar escritor, mas há alguns anos, especificamente nos últimos sete anos, fiz cursos, li livros sobre técnica literária, oficinas — A oficina de escrita criativa ministrada pelo professor Assis Brasil na PUCRS merece destaque, pois foi um salto gigantesco na minha escrita — que me ajudaram a tomar decisões mais conscientes sobre o que escrevo, como escrevo e encontrar minha técnica e estilo.
Resumindo, meu estilo de escrita vem do aprendizado e da leitura consciente, no intuito de me tornar um escritor melhor. 

3 - Como você lida com o bloqueio criativo?
Após refletir bastante sobre essa questão em diversos momentos da vida, tomei como uma teoria pessoal que existem dois tipos de bloqueio criativo. 
O primeiro é o marco do amadorismo, quando se acredita que escrever é, essencialmente, um ato de inspiração e que qualquer coisa que não venha como uma mensagem da musa não é escrita de verdade. Nesse primeiro tipo, estamos aguardando que a faísca da criatividade inicie a ignição do processo de escrita e, portanto, é impossível fazer qualquer coisa que não venha de uma fonte metafísica, quase um processo mediúnico. Não há como lidar com esse bloqueio criativo. Ele não é passível de ser contornado, moldado ou superado em si. Eu já tentei, fiz coisas que esperava que fossem despertar o desejo de escrever, encarei a página em branco por horas, tive raiva, sofrimento, êxtase quando acontecia, mas para histórias longas, quase na totalidade das vezes, esse bloqueio é intransponível, a história morre antes de terminar e desistimos dela, imaginando que não era para ser. O único jeito de não ter esse bloqueio criativo é matá-lo na premissa: escrever não é uma questão de inspiração.
O segundo tipo é muito pior: ele não vem da incapacidade de ter uma inspiração, mas da falta de tempo, energia, possibilidade de escrever. É o bloqueio que surge das vicissitudes da vida, das contas a pagar, da necessidade de ganhar dinheiro agora, de ter problemas para resolver, de exausto em um mundo demandante, brutal e que deixa pouco espaço para desenvolver uma escrita. A vantagem de alguém muito jovem que começa a escrever é que muitas vezes não tem todas essas preocupações, mas acaba caindo na armadilha da inspiração. E eu já vi muitas pessoas talentosas desistirem de escrever pois precisavam de dar conta do emprego, relacionamento, família, compromissos sociais, pagar boletos, etc. As formas de lidar com esse segundo tipo é sendo herdeiro ou conseguir desenvolver a escrita como uma prioridade na vida. Não há uma fórmula mágica ou um método para isso, infelizmente.

4 - Quais desafios você enfrentou durante sua jornada como escritor(a)?
Eu tive várias incursões na literatura. A primeira na adolescência quando foi membro da Academia Jovem Espirito Santense de Letras, a segunda no começo da faculdade com publicações em blogs e sites de escrita, a terceira quando sai do escritório de advocacia e resolvi fazer mestrado e a atual, em que eu realmente me dediquei a aprender e melhorar como escritor e profissional.
Em comum, todas tiveram as dificuldades da vida. É muito difícil construir algo artístico/criativo quando é preciso pagar as próprias contas. Conseguir equilibrar a escrita com essas dificuldades ou necessidades é o maior desafio, pois ele é de ordem pragmática.
Um outro desafio também foi decidir que eu pretendo fazer uma literatura socialmente comprometida com questões de raça, gênero, sexualidade, crença. Não digo algo panfletário ou explicativo, mas que a minha temática de escrita passa por explorar essas complexidades. O desafio ao trabalhar com isso é tanto encontrar espaço quanto conseguir projetar a própria voz.

5 - Você já teve experiências significativas com seus leitores? Alguma história que gostaria de compartilhar?
Como eu trabalho bastante a temática LGBT, por ser um homem cisgênero gay, por vezes recebo mensagens de leitores que ainda estão lutando com a própria aceitação, pedindo indicações ou dizendo que é reconfortante encontrar histórias que falem da nossa vivência e existência. É gratificante quando recebo alguma mensagem falando sobre minha história, como que a pessoa se sentiu ao ler, o que a fez pensar. Acredito que essa troca é essencial para manter a conexão criativa com o público e comigo mesmo.

6 - Como é o seu processo de escrita? Você segue uma rotina específica?
Eu prefiro trabalhar com objetivos de demanda. Quero dizer, se eu tenho um projeto em curso, eu determino minha rotina em relação a ele. Infelizmente, é muito dificil viver apenas de escrever. A gente precisa ter outros trabalhos, projetos, fazer divulgação, procurar parcerias, às vezes ter um trabalho que paga as contas.
Então é complicado ter uma rotina de fato, por mais que gostasse de conseguir isso. Em geral, eu determino o que quero concluir naquela semana (dois capítulos do livro, uma revisão, elaborar um esqueleto da história, entre outros exemplos) e utilizo o tempo que tenho para fazer essa tarefa acontecer.
Uma coisa que aprendi ao longo dos anos é também não me martirizar se não dei conta. Amanhã é outro dia e basta fazer o melhor que posso para cumprir meus planos. Eu sempre tento agir com responsabilidade, mas sem culpa.
Mas eu acredito que as pessoas têm formas diferentes de funcionar. O ponto crucial é conseguir compreender qual sua faixa saudável, tornar seu padrão de comportamento consciente e reproduzir isso da melhor maneira possível.

7 - Qual é o impacto que você espera que suas obras tenham nos leitores?
Como uma pessoa LGBTQ+, eu tomei como decisão que minhas obras teriam essa temática. Não acredito que exista uma literatura LGBTQ+ como um gênero estrutural, mas sim como uma questão de conteúdo e narrativa. E sei por experiência própria que esse nicho narrativo, embora tenha crescido e tido maior visibilidade nos últimos anos, ainda é uma arena de enfrentamento e sofre preconceitos, em especial entre pessoas cisgeneras e heterossexuais.
Eu cresci com narrativas, livros, filmes e séries cishetero orientados, ao ponto de a imensa maioria sequer citar ou adereçar para a existência de pessoas diversas. Para além da problemática dessa questão, o que eu quero com minha literatura é trazer nossas narrativas, histórias, questões, humores, descobertas. Seja em um livro leve jovem adulto, um conto mais denso sobre as questões internas da comunidade gay, ou mesmo antagonistas destestáveis que, calharam, de ter desejo e afeto por pessoas diversas.
A literatura não precisa ser político e socialmente engajada, mas eu pessoalmente acho que, quando não é, ela tende a ser plana, chata e banal. Eu gosto que minhas histórias tragam identificação e reflexão, ao mesmo tempo que possam ser uma boa literatura.

8 - Quais são seus planos para o futuro? Você está trabalhando em algum novo projeto?
Estou trabalhando em alguns projetos. Tenho um livro sobre imigração e relacionamentos tóxicos LGBTQ+ que pretendo terminar esse ano, dois outros livros que estão já com o projeto feito de fantasia urbana contemporânea e tenho um portal sobre escrita literária que desejo iniciar esse ano.

Gostaria de deixar algum recado para os leitores do Lost Words, e para seus futuros leitores?
Para os leitores de Lost Words, eu recomendo que desliguem o celular de vez em quando e leiam imersivos. O mundo está tão acelerado, e acho importante tirar esse tempo para outros mundos, um tempo de atenção completa, de relaxar a mente em uma atividade que nos faz melhorar. Precisamos resgatar o tempo e estabelecer uma forma de viver em que o fluxo de informação não nos torne exaustos. Eu acredito que a leitura é justamente uma dessas formas.

Sobre sua(s) obra(s):


Sinopse: Heitor Donnel passa o verão em transformação: perde doze quilos, cresce quatro centímetros e encontra coragem para enfrentar inseguranças que o perseguiram desde criança. Morador de uma cidade litorânea brasileira, vive como todo adolescente geek: coleciona cartas de Magic, discute ficção científica e joga RPG nos fins de semana.
No seu aniversário de dezesseis anos, quando muda seu quarto para o sótão da casa quase centenária de sua família, encontra, entre relíquias empoeiradas, um antigo caderno de couro pertencente à sua tataravó irlandesa.

O que começa como uma curiosidade inocente se transforma em um portal para o extraordinário quando Heitor, junto com seu melhor amigo Marlon, recita um encantamento e acidentalmente atrai para sua vida Gael O’Byrne, um jovem misterioso de olhos verdes vibrantes e presença magnética, mas que esconde alguns segredos.
Entre corridas matinais na praia e confidências ao luar, nasce uma tensão inegável entre os garotos, que faz o coração de Heitor acelerar mais do que qualquer magia. No entanto, esse novo sentimento é ameaçado por Milton, um ser do passado de Gael.

Encurralado entre uma ameaça sobrenatural que coloca sua família em risco e a descoberta de um amor que desafia as leis do Outro Lado, Heitor precisará dominar sua herança dual: o poder do sangue irlandês e a força mística da terra brasileira.
Sorte Feérica é uma narrativa eletrizante que mistura a beleza cômica da adolescência geek aos mistérios de um mundo onde magia é real, onde o crescimento pessoal colide com forças ancestrais, e nenhuma escolha é feita sem consequências. - Compre aqui!

Sobre o(a) autor(a):


Bruno Vial nasceu em Vila Velha - ES no Brasil, em 1986. Aos 18 anos, mudou para Brasília, capital e se considera brasiliense de coração. Estudou direito, advogou, mas decidiu seguir outros caminhos profissionais. Aos 33 anos, mudou-se para Portugal, onde vive há seis anos, residindo atualmente na cidade do Porto com seu marido. Escritor e editor de ficção com foco em temática LGBTQ+, participou de cursos e oficinas de escrita, anseia ser um escritor melhor e conseguir alcançar as pessoas com suas histórias. Publicou contos em revistas de literatura brasileira como a Escambanáutica e Eita Magazine e atualmente lançou o livro Sorte feérica, disponível na Amazon.

Beijos!

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