ENTREVISTA COM AUTORES #305 | Autor Igor Girão

by - segunda-feira, março 02, 2026


1 - Qual foi sua inspiração para começar a escrever?
Em 2005, por mais que pareça loucura dizer isso, o mundo era outro. Quando eu tive problemas de saúde decorrentes de uma infecção nas meninges e no encéfalo, eu me vi com 18 anos e agora uma pessoa com deficiência visual e deficiência motora. Eu pensava que ia ser atleta, jogava vôlei, jogava bem. De repente, eu estava totalmente desconectado do que eu achava que seria meu futuro.

Eu queria me expressar e não sabia como. Naquela cabeça de 18 anos, cheia de capacitismo internalizado, eu achava que a única coisa que eu podia fazer era escrever, porque já conhecia leitores de tela. Parecia a única ferramenta disponível. Só que o que começou como limitação virou potência. O papel aceitava tudo: minha revolta, meu amor, meus pontos de vista, minha forma de ver o mundo mesmo sem olhos, minha forma de caminhar mesmo sem andar. Quando percebi, dentro do papel eu não precisava de olhos nem de pernas — eu tinha asas. E isso é forte demais. Escrever é telepatia, é empatia, é transmissão de pensamento. É coisa séria.

2 - Quais autores ou obras influenciaram seu estilo de escrita?
São muitas influências, e sempre que a gente cita algumas fica com medo de ser injusto com outras. Os autores nacionais têm um lugar muito especial no meu coração, mesmo tendo chegado de forma tardia: Machado de Assis, Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, José de Alencar, Raquel de Queiroz… todos eles me atravessaram.

O primeiro livro que eu li sem que fosse obrigação da escola foi O Mistério das Cinco Estrelas, do Marcos Rey, e aquilo foi um marco. Depois vieram Tolkien, Stephen King, James Clavell, Arthur Conan Doyle, Robert E. Howard, Lovecraft, Eduardo Spohr, Leonel Caldela, Rafael Dracon, Afonso Solano… e tantos outros.

Mas minhas influências não são só literárias. Vêm da música, dos animes, dos filmes. Eu não me vejo escrevendo do jeito que escrevo sem ter ouvido Belchior, Ednardo, Tim Maia, Engenheiros do Hawaii, Biquini Cavadão, Chico Science, Seu Jorge. Tudo que a gente consome vira material criativo. A obra é um caldeirão.

3 - Como você lida com o bloqueio criativo?
Todo mundo que produz arte tem bloqueio criativo. Eu tenho, claro que tenho. A diferença é que às vezes eu demoro a perceber, porque hoje existem muitas ferramentas: filmes, séries, livros, redes sociais, inteligência artificial. Quando eu estou fatigado ou travado, eu procrastino. Eu faço outra coisa.

Enquanto estou em primeiro plano resolvendo a vida, tem um segundo plano aqui atrás funcionando, pensando na obra. Eu jogo ideias na inteligência artificial, testo possibilidades, converso, experimento caminhos. Quando destrava, é que eu percebo que estava bloqueado. Para mim, a grande sacada é não se paralisar por causa do bloqueio. É continuar vivendo enquanto a história fermenta.

4 - Quais desafios você enfrentou durante sua jornada como escritor(a)?
O processo de escrita é cheio de altos e baixos. Tem dia que você está inspirado, tem dia que você acha que tudo que escreveu é uma porcaria. E quando você coloca o ponto final, descobre que o trabalho está só começando. Você deixa de ser só escritor e vira marqueteiro, promoter, copywriter, presença constante nas redes.

Existe uma pressão enorme para performar o tempo inteiro. O mundo é rápido, exige produtividade, exige presença. Isso é cruel, é pesado. E escrever é muito solitário. Publicar precisa ser coletivo. Você precisa de troca, de rede, de gente que acredita — e de gente que duvida também. Se você não souber quem é, as críticas te desmontam. Se souber, você voa.

5 - Você já teve experiências significativas com seus leitores? Alguma história que gostaria de compartilhar?
Ver as pessoas lendo e criando teorias em cima da sua obra é uma das coisas mais gratificantes que existem. Elas puxam a história para lugares que você nem imaginou. Isso é mágico.

Duas experiências me marcaram muito. A primeira foi minha avó, ZZuila. Quando lancei meu primeiro livro, ela leu em duas semanas. Foi a primeira a me dar feedback. Com 88, 89 anos, com todas as limitações naturais da idade, ela leu e comentou. Aquilo me emocionou profundamente.

A segunda foi o seu Francisco, que conheci na Biblioteca Pública Estadual do Ceará. Ele escreveu o primeiro livro dele e disse que se sentiu inspirado por mim. Ele leu meu livro, me deu um retorno empolgado, e ver alguém produzir por se sentir provocado pelo que você faz é uma honra difícil de explicar.

6 - Como é o seu processo de escrita? Você segue uma rotina específica?
Eu queria dizer que tenho rotina, ritual, foco absoluto. Mas meu processo é caótico. Eu escrevo quando tenho tempo — e muitas vezes enquanto estou fazendo outras coisas. Fico com a aba do livro sempre aberta. Vou jogando ideias no papel e depois lapido.

Talvez demore mais para terminar um livro, mas eu não deixo a história esfriar. É uma forma de me forçar a escrever. O processo é solitário e até alienante, mas vale muito a pena. Eu me sinto completo quando estou escrevendo.

7 - Qual é o impacto que você espera que suas obras tenham nos leitores?
Em Além do Véu, eu não tinha uma pretensão clara de provocar reflexão, embora elas estivessem lá. Eu nunca quis obrigar ninguém a pegar a faca e o queijo e consumir a mensagem. Cada leitor faz o que quiser com o que lê.

Já em Ouroboros, existe uma intenção: provocar reflexão sobre capacitismo e sobre o que nos torna humanos. Essa é a única pretensão consciente. O resto nasce da própria trama, das escolhas dos personagens, das consequências. Minha escrita é reflexiva e contundente, mas despretensiosa. Eu não quero ser autocomplacente nem virar caricatura de mim mesmo.

8 - Quais são seus planos para o futuro? Você está trabalhando em algum novo projeto?
Eu acredito que é importante ter projetos em mente. O universo de Além do Véu precisa de pelo menos mais um livro. Eu sinto que devo isso aos personagens. A história terminou em um clímax alto demais para ser encerrada ali sem consequências.

O universo de Ouroboros é vasto, potente, cheio de lacunas e possibilidades. Ele pede continuação. Existem personagens que merecem aprofundamento e temas relevantes — inclusive polêmicos — que precisam ser explorados. E eu não vou me furtar a isso. A continuação já está sendo gestada.

Gostaria de deixar algum recado para os leitores do Lost Words, e para seus futuros leitores?
Eu poderia dizer que a literatura salva, que a leitura edifica, que todo mundo deveria escrever e publicar. Mas isso é muito particular. A necessidade de escrever nasce de dentro. Não adianta romantizar: escrever dói. Escrever é difícil. E desde a primeira pessoa que desenhou numa caverna, já existia alguém pronto para criticar.

Se você não tem a faísca, não escreva por vaidade. Não se force. Mas seja uma pessoa melhor no que você se propõe a fazer. A leitura pode ser ferramenta para organizar ideias e compreender o mundo, mas a motivação real não vem de fora — vem de dentro.

Agora, se o seu rolê é ler e escrever, vá em frente. Seja o melhor escritor do mundo ou morra tentando. Entre se descobrir leitor e morrer tentando, você vai produzir muita coisa boa. E isso já vale a jornada.

Sobre sua(s) obra(s):



Sinopse: Depois de um evento sobrenatural no seio da floresta amazônica, o guarda-florestal Samuel se vê enredado no meio de acontecimentos que desafiam os pilares do que para ele, eram a realidade.
“Além do Véu” apresenta um anjo que viveu como ateu e agora precisa acreditar que é um herói, mas será que ele é mesmo?
Nessa eletrizante narrativa as percepções de bondade e maldade se misturam e se convergem sob as faces de uma história de amor e sacrifício, de auto conhecimento e superação, de aprendizado e perdão. É perigoso subestimar o papel de qualquer pessoa. Somos responsáveis pelo nosso destino, ou tudo já foi escrito? - Compre aqui!


Sinopse: O apocalipse veio, mas o planeta resolveu seguir em frente. Pena que não chamou os humanos para seguirem junto.
Para escapar do inverno nuclear, construiu-se Ouroboros: um submarino colossal, pensado como arca de esperança. Mas a promessa de salvação virou prisão — aço e silêncio moldando um mundo onde cada vida é medida, pesada e controlada.

E se fosse você? Se sua família tivesse de provar, em relatórios e cotas, que merece respirar? Se sua diferença fosse transformada em sentença?

Dentro de Ouroboros, a humanidade é colocada à prova — e não há espaço para imperfeições.
O que nasceu para proteger acabou se tornando o verdugo. Uma serpente que devora a si mesma, revelando que o verdadeiro fim do mundo não é a destruição, mas a negação daquilo que nos torna humanos. - Compre aqui!

Sobre o(a) autor(a):


Beijos!

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